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08/05/06 | Fonte: Jornal Estado de Minas
A invenção de Ralf
     

Cantor sertanejo patenteia o Semi Metalic Disc, que permite vender discos no mercado a preços acessíveis ao consumidor. Artistas mineiros já estão adotando a nova tecnologia

Sérgio Rodrigo Reis

A reclamação contra a pirataria de CDs e DVDs virou novela no Brasil. Gravadoras, artistas e produtores não perdem a chance de se queixar e exigir providências das autoridades. O difícil de entender nessa polêmica toda é a resistência deles próprios em resolver o problema. Há três anos, o cantor sertanejo Ralf, da dupla Chrystian e Ralf, patenteou uma das idéias mais originais para tentar resolver a questão. Rato de estúdio desde os 9 anos, curisoso sobre as novas tecnologias, o músico criou um formato de disco, o SMD (Semi Metalic Disc), que permite baratear o preço final ao consumidor. Na prática, esses discos custam R$ 5. Ralf não conseguiu apoio entre as majors, mas o formato ganhou o gosto da minoria.

Em Minas, bandas estão seguindo os passos do músico-inventor. São inúmeras as vantagens do processo - a maior delas em relação aos custos de produção. Se antes a dupla sertaneja gastava nas gravações de um disco algo em torno de R$ 250 mil, as despesas de estúdio, no projeto em formato SMD, ficaram em R$ 12 mil. "Com o novo disco, não precisamos de estúdio. Fazemos em casa e, se o resultado nos agradou, é o que basta. O monopólio das gravadoras acabou. Antes, uma banda nova tinha que investir muito para tentar o sucesso. Se não conseguisse, corria o risco de ir à falência. Hoje, não mais", comemora Ralf. Ele não conseguiu convencer gravadoras da eficiência da idéia, mas isso não é problema. "Não fiz isso para empresários. Pelo contrário, idealizei esse formato pensando nos artistas, para eles terem maior autonomia. A criação é muito espiritual, é ímpar, para ficar nas mãos de pessoas sem competência", afirma.

A idéia surgiu por acaso. Na época da fita cassete, o cantor sertanejo fez de tudo para convencer as gravadoras a lançarem fitas com poucas canções. Para ele, isso poderia baratear o produto final e barrar a ação da pirataria. "Disseram-me que tinham desistido do cassete e o deixado à pirataria", conta. Por anos, Ralf ficou com aquilo na cabeça. Observou que atingiria o mesmo resultado do CD convencional se reduzisse a quantidade de metal usado na fabricação dos discos. Com isso, o preço cairia muito. "Foi só mexer em um botãozinho durante o processo de fabricação e estava pronto o SMD. Só que ninguém tinha atentado para isso", conta o artista, que patenteou a tecnologia. Os adicionais também foram reduzidos. O produto idealizado por Ralf chega ao mercado encartado em envelope, com visual bem mais modesto do que o tradicional. A preocupação maior de Ralf é com a manutenção do percentual de lucros recebido pelo artista - que, nesse caso, ganharia também na quantidade. "Hoje em dia, um CD que vender 50 mil cópias é considerado sucesso. Não é verdade. Em qualquer feira cantamos para este público. É preferível baixarmos os preços, vender 5 milhões de SMDs e, com isso, fazer show até debaixo d'água", afirma. O cantor argumenta que, com preço final baixo, piratear deixa de ser atraente.

Banda de rock aposta no SMD -
 A proposta de Ralf ainda não encontrou eco no showbizz. Mas artistas independentes têm adotado o novo formato. Depois da experiência bem-sucedida do primeiro disco, a RSex, banda de rock de BH, procurava meios de lançar o novo trabalho. Na internet, o vocalista Bob Cunha encontrou informações sobre o SMD e resolveu apostar na idéia."Migrei para o formato porque quem começa tem de primar pela qualidade e por um preço mais bacana", diz. Segundo ele, artista não ganha dinheiro com venda de discos, mas com shows. "Os CDs são vitrine", resume. Otimista em relação ao novo disco, que chega ao mercado em maio com o sugestivo nome de Hiperultramegapowersuper+, pela gravadora Discovery Music, de Juiz de Fora, Bob Cunha se diz reticente em relação ao mercado. "Embora o SMD passa trazer holofotes para a banda, sei que as coisas acontecerão no dia-a-dia. Nosso trabalho tem qualidade, é rock, tem boas letras e está sintonizado com as novas tecnologias."

Em Juiz de Fora, o novo formato vem sendo adotado. Em 13 de maio, a Discovery lança, no Free Hits, uma coletânea de música sertaneja em SMD que inclui, entre outros, a cantora Lee Dicristian. Também aderiram à tecnologia o roqueiro Klauss e o romântico Francisco Caldas. "Vai ser a solução. Há poucas pessoas em condição de comprar um CD a R$ 35 e, nessa situação, a pirataria mostra a sua força. Há um público a fim de comprar música mais em conta", aposta Cláudio Coelho, diretor da Discovery.

Entenda o SMD:
 * Criado pelo cantor Ralf e desenvolvido por engenheiros da Unicamp, o SMD (disco semimetálico) tem qualidade semelhante à do CD e pode ser tocado em qualquer aparelho. Não é MP3. Pode conter até 70 minutos de música. * Em vez de R$ 35 a R$ 40, o SMD chega ao consumidor final por R$ 5. Com isso, o objetivo é diminuir a pirataria. O novo formato permite cópia, mas, para o pirata, não compensa reproduzir e vender um CD falso desse valor. * Para chegar ao custo menor, os fabricantes de mídia virgem reduziram custos e o governo diminuiu o IPI. Não houve redução do que é pago aos autores ou do lucro dos lojistas. * O SMD tem visual mais simples. O disco é vendido dentro de um envelope plástico, eliminando caixinha e encarte. A ficha técnica é impressa no próprio produto. *Os custos de produção também diminuem drasticamente. Em vez de R$ 250 mil (custo médio de um disco da dupla Chrystian & Ralf), no último trabalho eles gastaram R$ 12 mil.

Informações: (32) 3084-4914 ou nos sites www.portalsmd.com.br e www.discoverymusic.com.br 

 
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